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Carlos Eduardo Iwai Drumond[1]

Uma das inquietações mais frequentes entre os estudantes de economia é a percepção de que o curso de Ciências Econômicas é muito teórico, percepção esta que encontra reforço em certos círculos fora da universidade. Segundo essa percepção, o curso de economia estaria sendo estruturado de maneira a negligenciar os saberes práticos relacionados à vida cotidiana e ao mercado de trabalho. Tal inquietação, é importante salientar, não tem relação alguma com criticas a essa ou aquela escola do pensamento econômico, seja manipulando equações e gráficos ou lidando com conceitos mais amplos sobre a economia e a sociedade, estar-se-ia priorizando um viés acadêmico em detrimento das necessidades técnicas do mercado de trabalho.

Se as questões apresentadas acima são verdadeiras, uma maneira de tornar o curso mais útil e aderente às necessidades do mundo do trabalho seria adotando uma formação marcada pelo aprendizado de ferramentas imediatamente úteis as empresas. Dito de outra maneira, se deveria abandonar a demasiada carga de raciocínio abstrato e teórico e focar-se naquilo que importa, isto é, os saberes operacionais práticos.  
 
Longe de defender uma formação “alienada” das necessidades reais da sociedade e dos anseios profissionais dos estudantes, o objetivo deste texto é argumentar que a dicotomia entre prática e teoria é uma forma equivocada de olhar as coisas. Neste sentido é preciso pontuar algumas questões: i) A capacidade de intervenção prática não existe sem sólida formação teórica; ii) A capacidade de pensar abstratamente é parte fundamental do trabalho dos economistas, seja nas empresas do setor produtivo, no setor financeiro ou no governo; iii) Focar-se excessivamente em “pretensas” necessidades do mercado é tornar o futuro economista um sujeito rapidamente obsoleto.
 
A questão central não é se os estudantes recebem uma formação acadêmica ou profissional e sim se os cursos de economia são capazes de ensinar as pessoas a pensar usando ferramentas abstratas e teóricas, mas, sem perder de vista a razão de existir dessas ferramentas que é a compreensão dos fenômenos reais. Não é preciso falar em economia para entender que o raciocínio abstrato ajudou a humanidade a construir seu caminho, a geometria euclidiana, que as crianças começam a aprender na escola manipulando formas geométricas, é um ótimo exemplo. Notoriamente o mundo não é um “plano” aprisionado em duas dimensões, mas mesmo uma representação de mundo tão simples teve um papel indispensável na resolução de inúmeros problemas práticos desde a agricultura até a construção civil.

Olhando para economia, seja nas disciplinas mais convencionais como Macroeconomia e Microeconomia ou nos espaços mais alternativos da Economia Política e de tantas outras disciplinas, a intenção é acima de tudo que a capacidade de pensar de maneira sistemática seja desenvolvida, pois dificilmente uma carreira bem sucedida se construirá sem isso. Finalmente é preciso reconhecer que, embora muitas vezes as pessoas nem se deem conta, na maioria do tempo questões práticas estão sendo resolvidas com proposições teóricas formuladas anteriormente de maneira abstrata. Nas palavras de Keynes na Teoria Geral, “os homens objetivos que se julgam livres de qualquer influência intelectual são, em geral, escravos de algum economista defunto”.
 

[1] Professor do Departamento de Economia da UESC

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