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Carlos Eduardo Iwai Drumond[1]
Cleiton Silva de Jesus[2]

zona euroAo fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, tão urgente quanto à necessidade de reconstruir prédios e casas era a necessidade de criar bases institucionais capazes de evitar que a tragédia da guerra aconteça novamente. Em um continente marcado por uma longa história de conflitos, a integração econômica parecia uma saída, o passo inicial para a construção de um continente coeso. Foi assim, na tentativa de usar a economia como fator de coesão, política e social, que passo a passo se caminhou na direção da União Européia como se conhece hoje. Desde a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço em 1951 até a integração monetária, com a criação do Euro em 1999, a história foi sendo escrita não apenas pautada na racionalidade que ocupa a mente dos economistas, mas, sobretudo na intenção de criar fortes laços políticos e sociais.

Contudo, “no meio do caminho havia uma pedra” . . .  Após as consequências da crise financeira de 2008, com todos os países da Zona do Euro (ZE) impelidos a gastar para tentar evitar o pior, as dificuldades estruturais do projeto de integração monetária ficaram mais escancaradas.  O fato é que, a despeito de toda tentativa de integração, o continente possui diferenças econômicas e sociais ainda muito profundas. De um lado, países como França e Alemanha, com estrutura industrial competitiva e alta produtividade e, de outro, países como Grécia e Portugal, com menor produtividade e indústria menos competitiva.

Em geral, quando cada país tem sua própria moeda e, consequentemente, alguma autonomia na condução da política monetária, tais diferenças estruturais podem ser amenizadas através de desvalorizações cambiais. Essa estratégia de política econômica, diga-se de passagem, foi usada em outras ocasiões. Já quando não se pode fazer política cambial, como no caso da existência de uma moeda única, pensando num modelo simples de dois países, o país mais competitivo começa a exportar mais bens enquanto o menos competitivo, além de exportar menos, começa a importar mais produtos. Em condições normais, tais diferenças já podem causar bastante estrago, mas quando você coloca no jogo uma oferta de crédito gigantesca, como foi no período pré-crise, isso tende a se aprofundar porque os países menos competitivos, cujo símbolo nas manchetes de jornal é a Grécia, se veem estimulados a consumir, de diversas formas, e aprofundam seus déficits, tanto nas contas do setor público quanto nas transações correntes (os chamados déficits “gêmeos”). Quando uma crise estoura, como foi em 2008, estes déficits tendem a se aprofundar ainda mais, isso porque, na tentativa de estimular a economia, para que postos de emprego não desapareçam abruptamente e a renda da sociedade diminua de forma dramática, os governos precisam gastar mais, ou, em outros termos, executar uma política fiscal expansionista.

O atual cenário é realmente muito grave, especialmente para a Grécia, que se vê numa terrível encruzilhada: ao mesmo tempo em que a sua relação dívida/PIB requer um ajuste fiscal drástico (caminho para o inferno) há uma sociedade que sofrerá com uma recessão profunda caso isso seja feito. A Alemanha, ironicamente, o país derrotado da guerra, se tornou um dos poucos capazes de fazer alguma coisa. Caso a Alemanha, a economia com maior produtividade da ZE, decidisse gastar mais, ampliando com sua demanda por bens produzidos em outros países da ZE, as diferenças estruturais poderiam ser atenuadas, ao passo que as economias dos outros países do continente seriam dinamizadas em alguma medida. Outra alternativa seria a emissão de títulos de dívida de maneira conjunta, uma vez que a Grécia, por exemplo, não tem condições de captar recursos, ao passo que a Alemanha e a França ainda gozam de credibilidade suficiente para emitir títulos com taxa de juros baixas. Sendo assim, caso se criassem os chamados eurobonds a Grécia e outros países de baixa produtividade poderiam ter acesso a recursos de maneira mais barata e ganhariam tempo e espaço fiscal para a realização dos ajustes necessários com custos sociais menores.

Obviamente, as medidas elencadas acima não têm, por si só, o poder de eliminar os problemas estruturais existentes, mas dariam algum fôlego para o projeto do Euro. Contudo, os líderes da ZE têm passado os últimos meses mergulhados em impasses e divergências. A falta de um rumo para a crise fez a situação se tornar ainda mais instável e incerta. Dada gravidade das coisas, a probabilidade da Grécia sair da ZE é enorme e, caso isso aconteça, sofrerá não apenas a Grécia, mas o resto do continente, contaminado pela incerteza e pela instabilidade. Mesmo o Reino Unido, que está fora do Euro, deverá sofrer uma forte retração do seu PIB, com a transmissão ocorrendo via comércio e sistema bancário. Na consolidação deste cenário, a Europa viverá uma década de baixo crescimento, com consequências sociais não desprezíveis.

Note que nessa história não há cigarras e formigas, gastadores e poupadores comedidos, o que temos é um continente, com significativa heterogeneidade na sua estrutura produtiva, que tentou usar a integração econômica como ferramenta de integração política e social. Quanto vale esse projeto? A despeito de todos os problemas técnicos, que de fato são reais, a tentativa de construir um continente integrado é algo que não se pode resumir em números. É bem provável que a ZE como se conheceu até hoje deixe de existir em pouco tempo. Nessa perspectiva, podíamos falar numa década perdida para a Europa, mas, por outro lado, assim como a década de oitenta foi uma época de oportunidades de reflexão da sociedade brasileira, culminadas na redemocratização e na Constituição de 1988, pode ser que o povo Europeu consiga usar as atuais adversidades para construir uma “nova” União Européia. O que se observa, porém, é que os formuladores de políticas públicas não têm ajudado muito para que tal transformação ocorra.


[1] Doutorando em Desenvolvimento Econômico – UFPR e professor do DCEC - UESC
[2] Doutorando em Desenvolvimento Econômico – UFPR e professor do DCIS  -  UEFS

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